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Meu nome

Meu nome

Morri. Morri? Não sei. Em determinada hora eu estava na maca do posto de saúde e em seguida eu estou em pé nesse deserto. O chão parece areia, mas é mais densa. Eu arrasto a ponta do pé uns centímetros e a contragosto, ela cede espaço para uma pegada. Está muito frio. É estranho… Desertos não são quentes? É dia. Mais ou menos. Deveria haver um sol, mas eu só vejo um pano cinza escuro que recai sobre montanhas e pedras. Pelo menos eu acho que são pedras. Podem ser vegetação. Pode ser que elas tenham se mexido, mas eu não tenho certeza.

Não ouço nada. Não sei se isso é uma boa notícia.

Nenhuma alma chega bem ao inferno. Bom, quando uma alma chega ao inferno, ela já não estava bem para começo de conversa. Eu sei muito bem o que vocês fazem aí na Terra quando estão encarnados...

Caronte

guia, Inferno

Como foi que eu cheguei aqui? Ao meu redor, nada. Acima, nada. Atrás de mim uma única pegada, que eu acabei de deixar para trás, começa a perder sua forma lentamente. Não há vento para empurrar a areia. Se é que isso é areia. Se é que isso é o chão.

Será que eu caí do céu? Será que existe um céu? Ou será que existe um inferno?

Eu grito palavras desformes e nada acontece. É um grande deserto silencioso. Nada responde.

Eu ando. Está frio. Minhas mãos estão geladas, meus pés também. Não vejo abrigo em lugar algum. Atrás de mim as pegadas perdem a forma conforme eu me afasto delas. Nada do que eu sou deixa uma marca nesse lugar. Eu deixo de existir aos poucos.

Eu ando e ando e ando. Parecem horas, mas o céu não mudou. Eu deveria estar cansado, com os pés doendo, mas tudo o que eu sinto é o frio e a fome. Não sinto vento. Não sinto sol. Só sinto minhas memórias de bêbado. Eu tive uma casa, uma família, um emprego. Mas eu me lembro muito pouco delas. São apenas uns flashes distorcidos. Como memórias de um bêbado no dia seguinte.

Eu tive uma vida, agora eu tenho memórias de pegadas.

Eu ando, e eu ando mais e paro de andar pelo tédio. A paisagem não muda, cercada de formações que parecem rochas. Mas podem ser vegetações. Me aproximo de uma e toco com a mão. Ela se move. Parece tremer. Está vivo? Talvez tanto quanto eu. Eu me sento e espero por algo acontecer. Nada.

Eu estou no meio do deserto, as pegadas somem sem vento, não escurece e as pedras vibram e tremem.

E o frio não passa. E a fome não passa. Para cima tudo é cinza. Ao meu redor tudo é cinza. Dentro de mim as memórias se esvaem.

Devo ter me deixado largado na areia por horas e horas. Nem um pássaro cruzou o céu. Nem um sopro de vento. Nada.

Ouço algo se arrastando na areia e me levanto rapidamente. Não parece longe, mas não consigo enxergar em lugar algum. Tento escalar alguma dessas pedras, mas não há onde cravar os dedos ou os pés. São lisas, orgânicas. Meu pé escorrega e eu bato a cara contra uma delas. Um filete de sangue escorre do meu nariz, mas a dor é pouca perto da excitação de encontrar alguém… ou algo!

Não dá para saber de onde vem o som. Mas assim mesmo eu corro por entre as pedras atarantado. Quando elas se tornaram tão próximas umas das outras?

Então numa curva eu encontro a criatura. Paro na hora.

 

 

O pânico me domina totalmente. A criatura parece cega. Se mexe aleatoriamente no mesmo lugar, como se procurasse algo no chão. Não sei dizer o que são patas e o que são tentáculos. Eu apenas olho. A criatura parece ter uma pele lisa e branca e longos braços aracnídeos. Ela muda de lugar desconfortavelmente e abre e fecha sua bocarra. A cada mordida no ar, a boca parece se soldar de volta ao crânio, se tornando uma abóbada única. Cada vez que a boa abre, a pele parece se esfrangalhar em tiras. O restante do seu corpo parecia desaparecer em meio à patas, garras e tentáculos rente ao chão. O monstro parecia liquefazer-se.

Seu crânio liso se aproxima do chão e volta a rugir silenciosamente no ar. As garras tateiam ao seu redor. A criatura é toda composta de fúria.

Meus pés não se lembram de se movimentar. Meu corpo não lembrou de reagir. Deixou-se ficar sólido em seu lugar, à mercê de ser destroçado.

 

– Cê, tá louco? Vem cá!

A voz que se seguiu ao puxão que eu sofri pelo tecido da camisa era sussurrada com pressa. O pânico da voz trouxe movimento de volta ao meu corpo e mesmo não sabendo o que fazer, eu a segui. Vi as costas de uma figura humana se afastando rápido daquele ninho do qual eu quase me tornei parte. Corri atrás, desesperado, às vezes cavando a areia com as mãos, às vezes com os pés.

Não sei quanto corremos, nem em tempo, nem em distância. Sei que em algum momento a figura humana que corria a minha frente parou, virou para mim e desfez completamente a ilusão de que se tratava de um humano. Com um berro eu pulei para trás ao ver as formas distorcidas do que poderia um dia ter sido um rosto.

Como eu nada dizia e minha expressão era de puro terror, a figura se aproximou. Tem contornos femininos. Quase. Parece velha. Mas não parece humana.

– Então você acha uma boa ideia servir de comida para qualquer coisa que rasteja por aqui?

Eu não sabia nem pensar, que dirá responder alguma coisa. Mas a maneira como ela (?) se aproximou não parecia ameaçador.

– Eu… o que… O que era aquilo?… E o que é você?

Ela se afastou um pouco e me olhou de cima abaixo.

– hummm… alma nova. Chegou agora?

– Eu… acho que sim…

– Deixa eu encurtar a história para você. Você morreu. E como você provavelmente é um bosta, você morreu e veio parar no inferno, que é onde os bostas como você e eu terminamos. Como você ainda tem dois braços, duas pernas, dois olhos e em geral ainda se parece com um ser humano, isso quer dizer que você ainda é um cadáver fresco. Mas não se preocupe, isso muda rápido.

 

– Eu vou ficar como você?

– Ou com aquilo ali atrás para o qual você queria se sacrificar.

– Aquilo é gente? Ou foi…?

– Foi gente. Ruim, má. Morreu e veio parar aqui. Com o tempo vai virando monstro. Como eu. Como você.

Não sabendo mais o que perguntar, apenas fiquei olhando essa figura me dar as costas e caminhar lentamente.

– Espera, para onde eu vou?

– Não importa. Tudo aqui é meio igual.

– Quem é você? – gritei, ela se afastava.

– Num lembro!

– Como assim, você esqueceu? Quanto tempo você está aqui?

Por algum motivo ela parou e olhou para trás. Talvez aquilo fosse um sorriso sarcástico.

– Tempo? Isso não existe! Não existe esquecimento porque não existe memória. Não existe passado ou futuro. Só fome. E frio.

Eu nem me lembrava do frio e da fome depois da corrida. Mas a corrida não havia me aquecido. Corri atrás dela, finalmente alguma coisa no meu corpo me obedecia. Cheguei perto o suficiente para pegá-la pelo braço, mas não ousei tocar nela.

– Peraí, você precisa me explicar mais. Eu vou sobreviver aqui.

Com um longo e desanimado suspiro, ela se apoio no cajado e me olhou de frente pela primeira vez.

– Olha, você era muito ruim na Terra, morreu e veio parar aqui. Aqui não existe nada. Só almas vagando perdidas. Só alma ruim. Não existe tempo, não existe calor, não existe comida e não existe escapatória. Você vai ficar por aqui para sempre. Você não vai morrer e nem reencarnar. E esse lugar… esse lugar vai te distorcendo. Te mastigando. E é isso. O inferno é para sempre.

– Mas eu fui tão ruim assim? Você foi tão ruim assim?

– Num sei. Num lembro. Nem você lembra.

Era verdade. Eu não lembrava de absolutamente nada da minha vida ou da minha morte.

Eu não sei o meu nome.